Análise da Relação entre Contexto Socioeconômico e Rendimento de Jovens no ENEM 2021: Explorando a Influência em Meio a Desafios Pandêmicos
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- Gabriel Andrade do Nascimento
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- Marcos Paulo Souza
Anualmente, milhares de jovens prestam o Enem em busca de ingresso em alguma universidade no Brasil, porém são poucos os que conseguem conquistar uma vaga. A fim de encontrar uma relação entre contexto social e desempenho no Enem, foram aplicadas técnicas da ciência de dados sobre a base de dados oficial do Enem 2021, disponibilizada pelo Inep. Buscou-se tratar os dados e exibi-los em gráficos que permitissem a visualização da influência do contexto social no desempenho dos inscritos no exame. Foi identificado que 500 mil jovens da classe mais baixa, a maioria, obtiveram notas de 600 ou menos, enquanto 5 mil candidatos de classe média e alta, a minoria, obtiveram mais de 700 (de um total de 1000). Os dados mostram que a renda familiar, o contexto social e o grau de formação dos pais possuem uma grande influência na formação desses jovens, nas possibilidades de acesso à educação superior e no seu desempenho no Enem. Percebe-se, então, que problemas de políticas públicas ligadas à educação afetam as chances de ascensão social do indivíduo, principalmente quanto ao acesso à educação superior.
Palavras-chave: Enem; ascensão social; análise socioeconômica; Ciência de Dados; ensino superior
Introdução
Como forma de auxiliar o Ministério da Educação (MEC) na criação de políticas públicas, foi criado, no ano de 1998, pelo então ministro da educação Paulo Renato, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Apesar de ter sido criada como avaliadora da excelência do ensino nacional, a prova teve alterações em suas funções ao longo dos anos. Um desses exemplos foi o desenvolvimento do Sistema de Seleção Unificada (SiSU), que possibilitou aos vestibulandos o ingresso no ensino superior utilizando o resultado da nota da prova, estimulando os jovens a entrar em universidades, aumentando a acessibilidade no processo de ingresso das faculdades, unificando os custos dos vestibulares e possibilitando concorrer para diversas faculdades públicas de altíssima qualidade (SOUZA, 2015).
Como forma de colher dados sobre a situação socioeconômica dos cidadãos que fazem a prova, as pessoas que realizam o Enem devem responder um questionário desse cunho para poder finalizar a inscrição. Assim, esses dados inter-relacionados são disponibilizados em portais de transparência governamental, podendo ser utilizados como fonte de pesquisas sociais, principalmente no âmbito da educação. Dessa maneira, é imprescindível a ciência da interferência da situação social ao desempenho no Enem como importante indicador de desempenho no ensino médio. (Inep, 2010)
Em hipótese, as dificuldades ou barreiras sociais vivenciadas pelo jovem ampliam a lacuna existente entre as classes sociais, o que, com base na Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (ABEP), pode ser um fator de dificuldade na ascensão entre elas. Desta forma, o uso de técnicas de análise de dados aplicadas às bases oriundas do preenchimento dos questionários socioeconômicos aplicados no processo de inscrição no Enem pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) pode permitir analisar a influência destes aspectos nos resultados obtidos pelos estudantes.
Com o intuito de analisar e verificar se as causas da ausência desses jovens no ensino superior são provenientes de fatores como a condição socioeconômica, definidas pela formação do responsável legal ou o tipo de escola frequentada, serão analisados dados oriundos do questionário socioeconômico aplicado durante a inscrição no Enem. Para a amostra nesta pesquisa, serão selecionados jovens entre 17 e 25 anos (BRASIL, 2013) no ano de 2021. Dessa forma, esses aspectos serão relevantes para apoiar o entendimento sobre as variáveis e permitirão apresentar possibilidades futuras para o planejamento de políticas públicas no sentido de melhorar o cenário apresentado no país.
Segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), “os brasileiros são pessimistas quanto à mobilidade social em seu país. Seis a cada dez brasileiros acham que o esforço não é suficiente para que uma pessoa nascida na pobreza alcance um padrão de vida confortável” (OCDE, 2018). Neste estudo, a OCDE debate a teoria de que a mobilidade social no Brasil impacta a vida do cidadão de forma que seu esforço não resulte em ascensão social.
Paralelo a isso, torna-se indispensável o uso da análise de dados para encontrar padrões nos dados de indicadores socioeconômicos que podem influenciar e impedir o bom rendimento no Enem e na chegada ao ensino superior, a fim de obter informações relevantes ao desenvolvimento de políticas públicas voltadas à educação. Para isso, serão utilizados os microdados abertos oferecidos pelo Inep relativos ao Enem 2021.
O objetivo deste estudo é analisar os dados socioeconômicos que permitem a visualização da situação na qual grande parte dos jovens (17 a 25 anos) se encontram até a realização da prova do Enem, identificando-a pelo desempenho na prova a partir de ferramentas da Ciência de Dados. Para atingir este objetivo será necessário:
- estudar o cenário atual da educação considerando o desempenho na prova do Enem e aspectos socioeconômicos dos jovens brasileiros;
- efetuar a extração e tratamento dos dados do Inep, gerados com base no questionário socioeconômico do Enem 2021, referentes aos jovens de 17 a 25 anos;
- elaborar análises baseadas em visualização dos dados (dashboards) que permitam obter novas descobertas e relações presentes nos dados quanto à influência das classes socioeconômica, formação do responsável legal, tipo de escola e faixa de renda familiar mensal, em relação a seu desempenho no Enem;
Com foco primordial na integridade e transparência nos processos, os dados tratados estarão em um único ambiente em nuvem e visível ao público na plataforma Kaggle (SILVA, 2022), mas somente os envolvidos na pesquisa poderão ter acesso à manipulação. Com ordem e comunicação na pesquisa e nos dados, as práticas envolvendo a replicação, transferência e a manipulação de dados serão cautelosas, garantindo assim que não ocorra comprometimentos causados por erros humanos ou falhas de máquina, resultando em uma análise imprecisa, levando a resultados duvidosos ou incorretos.
Fundamentação Teórica
Dado os objetivos do estudo, é necessário introduzir uma base teórica sobre os assuntos de elevação social, educação e conceitos importantes na área da ciência de dados.
Mobilidade Social
O “elevador social” está quebrado no Brasil (OCDE, 2018). Isto é, famílias e indivíduos de baixa renda têm dificuldade em ascender a escala social, e aquelas que se encontram no topo tendem a permanecer. “A falta de mobilidade ascendente implica que muitos talentos são perdidos, prejudicando o crescimento econômico potencial.” (OCDE, 2018).
Este problema é especialmente ruim no Brasil, onde “as conquistas e a qualidade da educação permanecem baixas na comparação internacional. O acesso a creches é difícil, especialmente para famílias pobres.” (OCDE, 2018).
Assim, entende-se que não só os núcleos familiares de baixa renda têm poucas chances de subir o “elevador social”, como também seus descendentes, que por falta de acesso à educação, possuem ainda menos chances.
Ao analisar estudos feitos na Inglaterra e nos Estados Unidos a partir da década de 60, Pinto e Tenório (2015) afirmam que “[...] a igualdade de oportunidade no acesso à escola não significaria um bom desempenho e que este estava estreitamente relacionado à origem social do aluno, às diferenças advindas da sua condição socioeconômica”. Ou seja, diferenças socioeconômicas entre alunos estão diretamente ligadas às diferenças em seu desempenho.
Por isso, é importante uma análise acerca das diferenças do desempenho apresentados por jovens, utilizando resultados do Enem como métrica, a fim de auxiliar no problema do elevador social quebrado e garantir oportunidades de ascensão social iguais para todos.
Questionário Socioeconômico do Enem
Segundo a Assessoria de Imprensa do Inep, em um comunicado publicado em 2010 e atualizado em 2022, é obrigatório responder o questionário, na época enviado pelos correios, hoje em dia disponível na inscrição online, para poder realizar a prova, pois:
Além de servir para aprofundar os dados e informações a respeito dos participantes do Enem, o Questionário Socioeconômico é um importante instrumento por meio do qual o candidato pode relatar as suas impressões sobre as condições do ensino que recebeu, a sua vida estudantil, a situação do Brasil e muito mais. (Inep, 2010)
Ao coletar o máximo de dados possível sobre a vida social e escolar dos candidatos, “poderão ser formuladas novas políticas públicas visando à melhoria da educação no país.” (Inep, 2010)
Conceitos de Ciência de Dados
Para Rodrigues (2011), a preparação de conceitos é fundamental para a técnica de investigação, pois ela se situa na concepção de levantamento e teste de hipóteses para responder à pergunta de investigação. Conceitos utilizados na ciência de dados como tratamento, manipulação e visualização de dados são frequentes e importantes para preparar os dados para responder às hipóteses corretamente, pois dados crus podem estar incompletos e conter erros.
Tratamento de dados
De acordo com Rodrigues (2011), “As técnicas de análise de dados variam em função da estratégia de investigação bem como da natureza das variáveis”, de fato, pela natureza dos dados, o tratamento de dados é um processo essencial e importante para a futura análise. Os dados brutos consequentemente podem conter erros e dados vazios gerados pelo próprio ambiente da coleta de dados, sistema, vírus, pessoas e pelo próprio portador do dado. “Após enunciar o problema, definirmos a pergunta de investigação, bem como as hipóteses decorrentes, recolhermos os dados necessários e procedermos ao respectivo tratamento, resta ao investigador promover a generalização dos resultados” (RODRIGUES, 2011, p.174). Executar com cautela a etapa de tratamento de dados é fundamental para não comprometer a integridade dos dados e ocasionar uma preferência, a favor ou contra uma pessoa, grupo ou característica.
Segundo Rodrigues (2011), para o tratamento e análise de dados, é cabível à atenção para optar pelo método mais indicado em relação à estratégia escolhida.
Pressupõe que o investigador “mergulhe” no contexto socioeconômico da realidade que pretende analisar, o que obriga o investigador a ser parte da realidade estudada, aumentando assim a dose de subjetividade inerente à investigação [...]. (RODRIGUES, 2011, p. 179)
O cuidado e atenção em tratar os dados, se deve ao fato de corrigir e remover erros gerados por pessoas, máquinas ou mau uso da ferramenta de coleta de dados que consequentemente resulta em uma visão incorreta sobre a realidade estudada. Para obter o máximo de precisão possível, é importante uma análise de dados de origem tanto quantitativa quanto qualitativa.
De acordo com Rodrigues (2011), o questionamento quantitativo tem reflexo em torno da natureza, conclusões e métodos dos diferentes ramos do saber científico.
Numa abordagem quantitativa, o investigador procura que os dados conseguidos e as informações produzidas ultrapassem os limites, no espaço e no tempo, da população em que se realizou a investigação. Esta generalização só será plenamente conseguida se o estudo for passível de reaplicação por outros investigadores, em contextos semelhantes, eliminando assim a suspeita de subjetividade na investigação. (RODRIGUES, 2011, p. 174)
Já o questionamento qualitativo é pertencente à corrente interpretativa.
Em alternativa, uma perspectiva qualitativa procura a generalização de outra forma. Procura, por seu lado, assumir uma posição de observador participante ou não, procurando absorver a totalidade da realidade em causa, compreender o processo social e definir novas abordagens teóricas. (RODRIGUES, 2011, p. 174)
Manipulação de dados, um processo incluso no tratamento de dados, é a tarefa de transformar os dados para ser mais fácil e agradável sua leitura e interpretação, a fim de que seja possível a sua visualização, assim resultando em novas descobertas.
Visualização de dados
Para Ciocari (2020), a visualização é o processo de transformar os dados já limpos em algo que o ser humano possa interpretar e visualizar sua proporção, descobrir tendências, relações, informações e padrões. A visualização de dados é um processo logo após o tratamento, onde os dados já estão adequados para a análise e visualização dos dados.
Procedimentos Metodológicos
De acordo com Rodrigues (2011), o investigador pode se encontrar questionando as ferramentas e metodologias ao seu alcance e quais delas serão apropriadas para concluir o objetivo do estudo.
- Será utilizada a base de dados referente aos microdados do Enem 2021 concedido pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas.
- A amostra será reduzida somente a jovens de 17 a 25 anos.
- Serão utilizados critérios de classificação econômica para determinar a classe econômica ao qual o indivíduo pertence.
- Serão escolhidos os critérios de classificação econômica da pesquisa com base no critério de classificação econômica brasileiro, desenvolvido pela Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (ABEP) (OCDE, 2018).
- Serão utilizadas as seguintes ferramentas e plataformas para a hospedagem, consulta e visualização dos dados: “Kaggle” e “Microsoft Power BI”
- Será utilizada a linguagem para construção dos códigos dos programas: “Python”.
Com uma abordagem séria, imparcial e íntegra, serão aplicadas na análise dados qualitativos sobre cada indivíduo, buscando entender, visualizar e estudar a realidade dos participantes. O mesmo será aplicado aos dados quantitativos, os quais são dados referentes à avaliação do participante, com o intuito de verificar a existência de uma relação com os dados qualitativos. De modo crítico e imparcial, o relacionamento desses dados será cuidadoso para não proporcionar em uma visão enviesada sobre uma certa condição ou característica, com o propósito que o projeto seja confiável, replicável e objetivo.
Considerando que, para Rodrigues (2011), o questionamento quantitativo tem reflexo em torno da natureza, conclusões e métodos dos diferentes ramos do saber científico, enquanto o questionamento qualitativo é pertencente à corrente interpretativa. Serão obtidos da população total de 3.389.832 inscritos no Enem 2021, uma amostra de jovens com idade de 17 a 25 anos, pois segundo a Lei nº 12.852/2013, classifica-se como jovem o cidadão entre 17 e 29 anos. No entanto, os microdados do Enem agrupam os participantes em faixas de: menor de 17 anos, 17 anos, 18 anos, separando individualmente até 25 anos, e em seguida começa a ser agrupado de 26 a 30 anos e faixas acima.
Considerando este agrupamento disponível nos dados que serão analisados, o recorte especificou somente os registros oriundos de respondentes da faixa já citada.
Processo para o tratamento de dados
A primeira etapa a ser realizada será o tratamento dos dados, pois de acordo com Ciocari (2020 apud HAN et. al, 2011) pode ser dividida em três técnicas distintas, sendo elas:
- Limpeza de dados: remover quaisquer linhas que não contenham valores, diminuir ruído ou discrepâncias e identificar valores atípicos.
- Integração dos dados: juntar dados de diferentes locais em uma única fonte.
- Redução dos dados: extrair uma parte de dados do conjunto para análise.
Segundo Ciocari (2020), a manipulação do conjunto de dados e o pré-processamento tem o intuito de torná-lo mais agradável, facilitando a visualização e a obtenção de informações. Com isso, serão selecionadas as respectivas colunas contendo os seguintes dados dos participantes: faixa etária, unidade federal da escola e o tipo de escola, como escola pública ou privada. Serão selecionadas as colunas contendo os dados das notas de ciências naturais, ciências humanas, linguagens, matemática e redação. E, por último, serão selecionados os dados das colunas úteis do questionário socioeconômico para obter uma pontuação a fim de determinar a classe social do jovem.
Tendo em mente esses conceitos, o primeiro passo a ser realizado será o de limpar os dados do conjunto, de acordo com Ciocari, “Os dados podem ser classificados em: categóricos (qualitativos), isto é, descritos por palavras; ou numéricos (quantitativos)”. Para isso, serão realizados dashboards com essas informações posteriormente, sendo importante padronizar todos os dados para que eles sejam quantitativos, evitando assim uma discrepância, pois a base de dados a ser utilizada se limita somente aos microdados do Enem do ano de 2021 e não será necessário realizar uma integração com outros dados.
Para auxiliar a realização de todos esses processos, será utilizada a linguagem de programação Python no ambiente do Kaggle para o desenvolvimento. Além disso, serão utilizadas as bibliotecas Matplotlib e Pandas (para visualização e manipulação dos dados) e Numpy (para manipulação dos dados quantitativos).
Definição das Classes Sociais
Para traçar uma relação entre a situação socioeconômica e o desempenho no Enem, será utilizada a divisão entre as classes sociais feita pela Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (ABEP), na qual a população é dividida em 6 possíveis classes, com base em variáveis como quantidade de bens materiais, grau de instrução do chefe da família e qualidade do serviço público do local onde o indivíduo mora.
As Tabelas 1 a 4 mostram a pontuação a ser atribuída conforme as variáveis, aplicada pela metodologia. Para fins de pontuação, será considerado que todos os respondentes do questionário do Enem possuem no mínimo água encanada, pois na contabilização da classe social é adicionada 4 pontos nesta variável, porém, este dado não está presente no questionário socioeconômico, o mesmo para a rua pavimentada.
Tabela 1 - Quantidade de bens materiais que o indivíduo possui em casa
Tabela 2 - Grau de instrução do chefe da família
Tabela 3 - Serviços públicos
Tabela 4 - Serviços públicos
Graças aos resultados da pesquisa socioeconômica oferecida pelos microdados do Enem de 2021, obteve-se o acesso a essas informações, agregando-as em uma única coluna denominada “CLASSE” guardando a sua pontuação na coluna “PONTOS”. Porém, como foi informado, o questionário socioeconômico não possui dados referente a água encanada e pavimentação da rua e, por isso, foi considerado que todos os inscritos possuíam, no mínimo, água encanada, adicionando 4 pontos.
Visualização para a análise
Nessa etapa será utilizado a biblioteca Matplotlib e o programa Microsoft Power BI para gerar os dashboard e gráficos para facilitar a visualização e a filtragem dos dados, utilizando como base os resultados dos testes socioeconômicos que irão dividir os indivíduos por determinadas classes sociais, e respectivas notas.
Serão gerados gráficos, principalmente de barras e de setores. Por meio desses será possível verificar as discrepâncias em diferentes contextos, como o contexto econômico, formação do responsável, renda familiar, etc.
Análises e Resultados
Após o tratamento e manipulação de dados, a amostra foi reduzida a 2.470.000 jovens, dos quais 69% foram nos 2 dias de prova, 4,2% não foram ao 1° ou no 2° dia de prova e 26,8% não foram em nenhum dia de prova.
Com isso, ao comparar os jovens que não fizeram o Enem em relação ao todo, observa-se que quase metade dos que não compareceram em nenhum dia da prova são da classe DE (a classe social mais baixa), representando 12,9% de toda a amostra. Este fato é ilustrado na Figura 1.
Figura 1 - Visão geral da presença na prova em relação à classe social
Esta análise mostra a possibilidade da nota do Enem estar relacionada à pontuação que define a classe do indivíduo segundo o IBGE. Dito isso, correlação não é causalidade.
Na Figura 2, são apresentados o total de inscritos, conforme a pontuação obtida na classificação da classe social, e deste total, subdivididos entre presentes e ausentes no exame.
Destacam-se os ausentes, cuja maioria foi classificada com a menor pontuação de classe social. Para fins de comparação, incluiu-se as barras cinzas que representam os presentes no exame, junto das vermelhas que representam os ausentes.
Observe que o eixo horizontal da Figura 2 representa a pontuação obtida no questionário socioeconômico, ou seja, as barras mais à direita representam os candidatos de classe mais alta, e à esquerda, de classe mais baixa.
Figura 2 - Análise dos inscritos que não fizeram a prova
Ao analisar a Figura 2, observando os jovens que não fizeram o Enem, percebe-se a grande concentração de jovens da classe DE, demonstrando que grande parte do público inscrito no Enem pertence a esse grupo. Percebe-se também que os candidatos de classe mais alta são os que mais fizeram a prova, revelando alguma correlação entre a situação econômica e a ausência desses jovens.
Em relação à informatização do jovem, percebe-se que a maioria possui internet e no mínimo um celular, garantindo alguma chance de consumir conteúdo educativo como preparação para a prova. Entretanto, boa parte não possui um computador, o que lhes garantiria um meio mais prático e eficiente para estudar.
Interferência do contexto social na nota do Enem
A Figura 3 apresenta médias de notas (por matéria) por classe, renda familiar e formação dos pais ou responsáveis. Além disso, apresenta a contagem de indivíduos de cada classe e a contagem da formação dos pais ou responsáveis. Assim é possível visualizar o desempenho de cada classe em cada matéria do Enem e também traçar uma conexão com o grau de formação de seus pais.
Figura 3 - Médias de notas por classe, renda e formação dos responsáveis
Boa parte dos candidatos do Enem possuem pais que não chegaram a completar, ou sequer fazer, o ensino superior. Como visto na Figura 1, mais de 70% dos jovens que fizeram o Enem estão dentro das 3 classes mais baixas, e percebe-se na Figura 3 que as médias das notas pela sua renda familiar mensal máxima tendem a crescer junto com a renda, o mesmo com a classe.
A maioria dos jovens situa-se entre as classes DE e B2, e a maioria dos pais ou responsáveis completou até o ensino médio, como mostra o gráfico de colunas no canto inferior direito da Figura 3. Nele, “N” representa “Nunca estudou”, “I” representa “Incompleto”, “5º” representa “até o 5º ano” (ensino fundamental I), “9º” representa “até o 9º ano” (ensino fundamental II), “M” representa “até o Ensino Médio”, “G” representa “Graduado” e “P” representa “Pós-graduado”.
Observando a Figura 3, é notável como a nota média aumenta, não só conforme a renda familiar do candidato, como com a formação de seus pais ou responsáveis. Isso demonstra que famílias com melhor formação possuem mais renda e, em hipótese, investem mais na educação de seus filhos, que por sua vez tiram maiores notas em média.
A Figura 4 apresenta a situação da presença no Enem de acordo com o grau de formação dos pais dos alunos. Deste modo é possível observar como a situação dos pais afeta a mentalidade do jovem.
Figura 4 - Situação da presença pela formação do pai e mãe ou responsável
Ao analisar a situação da Figura 4 percebe-se que os jovens que não realizaram a prova, cujos pais ou responsáveis não concluíram o ensino médio, representam cerca de um terço dos respectivos totais. Em comparação, aqueles que possuem no mínimo o ensino médio, não chegam a 25% e aqueles cujos pais possuem uma graduação representam menos de 15%.
Em hipótese, os jovens que não compareceram no dia da prova não sentem a necessidade de ingressar em alguma faculdade, possivelmente espelhando-se em seus pais. Esses mesmos jovens podem ter sido pressionados a procurar um emprego, seja pela sua idade avançada ou pela necessidade de adquirir melhores condições rápidas para si ou para sua família. Em comparação, pais ou responsáveis que possuem uma formação superior, incentivam o seus filhos a seguirem o mesmo caminho que eles, resultando em uma baixa ausência desses jovens.
- Análise de notas e classes sociais
Segundo a Figura 3, as médias das notas pelas classes situam-se entre 450 e 750. As notas acima de 700, que representam um provável ingresso em alguma universidade, foram alcançadas pela minoria de classe mais alta. As classes A, B1 e B2, são predominantes nas notas de Matemática e Ciências da Natureza, que possuem um grande valor para o ingresso na universidade.
Figura 5 - Contagem de notas específicas por classe social e tipo de escola de origem
A Figura 5, ainda sobre notas, mostra a quantidade de notas acima de 700 e abaixo de 600 nas disciplinas de Ciências da Natureza, Matemática, Linguagens e Seus Códigos e Ciências Humanas, separadas por classe social, e a proporção dos tipos de escola que esses jovens frequentaram.
Evidentemente, as escolas privadas oferecem uma melhor educação ao jovem, visto que possuem uma maior proporção sobre as boas notas, mesmo que grande parte dos jovens não tenha respondido. Já para as notas até 600 as escolas públicas representam 42,3% do total. Assim, entende-se que somente o ensino dessas escolas não é o suficiente para seus alunos ingressarem em uma universidade. Certamente os 5,4% que estudaram em escola pública e os jovens da classe DE que chegaram a tirar uma nota aceitável para o ingresso em uma universidade tiveram que se esforçar muito mais na preparação para a prova, apenas para se igualar aos jovens das classes B2, B1 e A de escolas privadas.
Análise e visualização pelo Power BI
Utilizando a ferramenta Power BI é possível observar a quantidade de jovens que tiraram uma determinada nota com base na sua classe social. Na Figura 6 é possível analisar a contagem total de jovens e a distribuição das notas. Quanto mais à direita, maior a nota e quanto mais alto, mais jovens tiraram tal nota.
Figura 6 - Contagem de classe por nota
Com isso, ao limitar a amostra para a classe DE, é possível perceber que a curva tende mais à esquerda, indicando que os jovens dessa classe tiveram um rendimento ruim, conforme mostra a Figura 7.
Figura 7 - Contagem de classe por notas de jovens da classe DE
Fonte: De autoria própria
Em contrapartida, ao limitar às classes A e B1, obtém-se o oposto: as notas tendem mais para a direita, demonstrando um melhor desempenho por parte destes candidatos, exibidos na Figura 8.
Figura 8 - Contagem de classe por notas com jovens das classes A e B1
Portanto, os jovens de classe baixa atingiram notas predominantemente baixas conforme a Figura 7, enquanto os de classe alta, notas mais altas, conforme a Figura 8.
Também é possível observar a diferença na quantidade de jovens em cada classe, como a classe DE, por exemplo, tendo mais indivíduos do que as classes A e B1. Para visualizar isso de uma maneira melhor, é possível fazer o oposto, separando a contagem de notas por classe, a fim de descobrir quantos indivíduos pertencem a determinada classe.
Figura 9 - Contagem de notas com base nas classes
Observa-se que a classe DE representa a maioria, com 521,1 mil (30,57%) candidatos e as classes B2, B1 e A representam a minoria, com menos de um terço do total de participantes.
Tendo essas informações, é possível filtrar para determinar a contagem em relação a um intervalo de notas, podendo verificar quais classes têm mais jovens que tiraram uma nota abaixo de 500, como mostra a Figura 10.
Figura 10 - Contagem de notas com base na classe. Com notas até a 500
A Figura 10 mostra novamente que as notas ruins, ou seja, de 500 ou menos, foram atingidas por mais pessoas da classe DE do que de qualquer outra classe.
Já a Figura 11 mostra que as notas boas, de 750 ou mais, foram atingidas principalmente pelas classes A, B2 e B1.
Figura 11 - Contagem de notas a partir de 750 pontos com base na classe
Comparando as Figuras 10 e 11, pode-se observar o mesmo contraste das Figuras 7 e 8: a maioria, a classe baixa, tira notas piores do que a minoria, as classes média ou alta.
Assim, são reforçadas as ideias e os dados trazidos anteriormente nesta análise, demonstrando que a situação socioeconômica está de fato relacionada ao desempenho no Enem.
Considerações Finais
No início do estudo, o objetivo era estudar possíveis relações entre aspectos socioeconômicos e rendimento no Enem e verificar as causas da ausência de mais jovens no ensino superior. Com isso, a pesquisa teve como finalidade apontar análises por meio de dashboards a partir de ferramentas da Ciência de Dados com a seleção da base de dados oficial do Inep.
Foi preservada a integridade dos dados para a realização dos processos de tratamento necessários a fim de obter resultados assertivos. Assim, foi realizada com êxito a análise e a visualização da influência que o contexto social vivenciado pelo jovem tem sobre seu desempenho no Enem.
Diante da metodologia de ciência de dados, foi possível a obtenção de respostas assertivas e a capacidade de replicação do estudo. Utilizando a linguagem Python e a capacidade computacional oferecida pelo ambiente em nuvem Kaggle, foi possível a manipulação e o tratamento de dados suficientes para a realização do estudo. Com isso, foi possível mantê-los íntegros, evitar resultados errôneos, e discrepâncias na visualização desses dados para a obtenção das devidas respostas. Nesta análise, os dados estão limitados a jovens brasileiros de 17 a 25 anos que representam a maioria do público do Enem, porém não estão incluídos jovens de 26 a 29 anos e idades mais avançadas; por isso, é importante a atenção que a análise não é referente a todos os inscritos no Enem.
O problema inicial da pesquisa é que a falta de mobilidade social provoca a perda de muitos talentos, pois, por conta da situação social, muitos jovens são impedidos de adquirir melhores condições por meio da educação. Esse é o reflexo da falta de uma boa rede de educação pública para o ensino médio, que falha em preparar seus alunos para a prova, levando-os a ter que se dedicar muito mais para atingir o básico.
Em contrapartida, alunos oriundos de escolas particulares possuem mais chances de ingresso em universidades por conta não só da melhor qualidade de ensino, como do acesso a cursos preparatórios especializados.
São notáveis as diferenças de desempenho entre as diferentes classes sociais, faixas de renda mensal e grau de formação do responsável legal.
A hipótese inicial da pesquisa foi de que as barreiras sociais vivenciadas pelo jovem ampliam a lacuna existente entre as classes sociais, e isso pode ser um fator de dificuldade na ascensão entre elas. Por meio deste estudo, foi demonstrado que fatores como a classe social e o grau de formação do responsável legal estão de fato relacionados ao desempenho do jovem no Enem, provando que existe uma grande dificuldade das classes mais baixas em ascender na escala social através da realização do Enem, em busca de ingresso no ensino superior.
Referências
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- Inep - Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira. Microdados do Enem 2021. Brasil, 2021. Disponível em: https://www.gov.br/inep/pt-br/acesso-a-informacao/dados-abertos/microdados/enem. Acesso em: 05 set. 2022.
- Inep - Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira. Questionário socioeconômico do Enem deverá ser respondido. Brasil, 2010. Disponível em: https://www.gov.br/inep/pt-br/assuntos/noticias/enem/questionario-socioeconomico-do-enem-devera-ser-respondido. Acesso em: 21 nov. 2022.
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Análise da Relação entre Contexto Socioeconômico e Rendimento de Jovens no ENEM 2021: Explorando a Influência em Meio a Desafios Pandêmicos
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